segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tropa no estrangeiro: ou voltam, ou ganham menos

Uma coisa é a necessidade de Forças Armadas; outra bem diferente é o uso que se lhes dá. De há muitos anos a esta parte, o nosso país envolveu-se em várias operações internacionais mas sempre participando numa lógica de pacificação. O bom do tuga tem alergia à guerra desde que uma ditadura lhe pediu para ir para África defender territórios riquíssimos do tamanho da Europa Ocidental - coisa que, para a inteligência média do bicho português, não fazia qualquer sentido senão à luz de vários "ismos" pouco recomendáveis. O tuga foi, passou uma grande parte do tempo a beber "jolas" na messe, na maior parte das vezes, como não viu turras teve de os imaginar no empregado de balcão e, ao fim de 13 anos, na posse de uma tripla, resolveu deitar o boletim fora.

Os traumas foram imensos e ainda hoje perduram: os ex-combatentes querem dinheiro pela honra que dizem ter tido em servir a Pátria; as pessoas bem pensantes descobriram que três conflitos simultâneos se resumiram à tortura de prisioneiros de guerra e os escritores dizem-nos que nem um milhão de fados bem chorados davam para expiar a nossa culpa. Não fossem uns provocadores desajeitados em Timor e há muito mais de trinta anos que não sabíamos o que era carregar no gatilho.

Portanto, como somos gente de bem e que quer é paz e sossego, só participamos em missões "humanitárias". E se, apesar de tudo houver tiros, nós preferimos que vão lá os outros que nós ficamos a tomar conta da base.

O grande problema das nossas participações ao abrigo da ONU, ou da NATO, é que não se percebe bem o que lá andamos a fazer.

Dir-nos-ão os responsáveis que as missões servem para manter o nível de preparação das nossas tropas, ao mesmo tempo que mostram o nosso empenhamento nas soluções definidas pela comunidade internacional. Tretas!

Se as nossas tropas só participam em missões de patrulhamento e de manutenção da paz, rapidamente se percebe que elas só ganham competências nesse âmbito. Competências essas que servem, depois, de pretexto para participarmos noutras operações porque, afinal de contas, já somos especialistas no estilo...

Se a Espanha, um dia, nos invadisse nós deixávamos o invasor passar e, depois, assegurávamos a paz...

Em que ponto é que isto contribui para termos umas forças armadas mais bem preparadas para a sua missão fundamental (andar ao tiro para defender o nosso território), é coisa que fica por explicar. Mesmo a Marinha, quando apanha piratas ao largo da Somália, não está propriamente a ganhar experiência para combater traficantes de droga e pescadores espanhóis (os grandes problemas das nossas águas).

Já quanto ao argumento do empenho e do prestígio... bem, só pode ser no gozo. É que a maior parte de nós ignora, sequer, a quantidade de países que mandam tropas (e alguns, em quantidade apreciável) para os buracos cavados pelo Ocidente. Isto quer dizer que o esforço dessas nações não ganha relevância fora do circuito fechado dos diplomatas e dos militares. E, convenhamos, um jogo da Seleção Nacional organizado na Bósnia (com a receita oferecida a uma organização local) valia anos de presença portuguesa no território. E saía muito mais barato.

(Já agora, que prestígio pode conseguir uma tropa que é posta sob comando italiano?)

Depois... há aquela coisa ridícula das participações simbólicas, em que mandamos dois tipos da Força Aérea (provavelmente, especialistas em ar condicionado), ou um avião para andar a acartar ovelhas ou três ou quatro observadores para andarem por ali a... observar.

Bom, mas o maior problema disto tudo não é, propriamente a quantidade ou a qualidade da participação mas sim o seu custo. É que esta malta que vai "servir a Pátria" lá fora é paga a peso de ouro. Para terem um bom exemplo, um soldado raso ganha milhares de euros por mês (com cama e comida oferecida)! Agora, imaginem um oficial.

Não é à toa que, mesmo antes de toda a gente ser obrigada (por turnos) a ir para a Bósnia (e afins), as listas estavam sempre cheias de voluntários. Pudera! E não era só o ordenado que fazia salivar, também era a hipótese de comprar material informático e tabaco a preços da chuva junto dos americanos. Grandes negócios que se faziam...

Ou seja, esta coisa das missões internacionais é uma grande, uma enorme mama para quem nelas participa e posso garantir-vos que, entre o oficialato, toda a gente tenta mexer os cordelinhos para ser enviado para o estrangeiro, para qualquer coisa!

E, fazemos nós a pergunta: se os militares, hoje, são profissionais, porque cargas de água, a partir do momento em que saem do país, começam logo a ganhar fortunas? Se se paga milhares de euros a um soldado raso para andar a fazer umas patrulhas, então, o que se lhe pagaria caso fosse necessário entrar em guerra? O país não aguentava um dia inteiro de combate!

Portanto, das duas uma: ou as tropas voltam a casa, ou começam a ganhar o mesmo que recebem quando estão na santa terrinha!

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