domingo, 17 de abril de 2011

Portas-te mal? Tropa contigo!

Lembram-se de quando era obrigação de todo o mancebo (essa palava que quase tem cheiro) ir "dar o nome", pedir o "adiamento", ir à inspeção e, finalmente, se tivesse pouca sorte ou fosse calão nos estudos, ir "arranhar"? Pois é. Tudo isso foi no tempo em que Portugal não tinha ainda chegado à conclusão de que, como país rico que era, não podia perturbar a vida da juventude masculina com coisas tão sem importância como aprender a defender o território nacional (a juventude feminina, em nome da igualdade entre os sexos, apenas tinha o direito e não a obrigação de vestir a farda). Pela liberdade, pela modernização da sociedade, pela qualidade das Forças Armadas, acabou-se com o Serviço Militar Obrigatório e instituiu-se o regime de voluntariado pago. Os rapazes ficaram com mais uns tempos à grande (no fim do SMO, a coisa durava apenas quatro meses) e o país passou a pertencer ao clube dos que tinham "Forças Armadas profissionalizadas". Um orgulho, um avanço civilizacional!

Depois, veio a fatura...

Se os magalas ganhavam meia dúzia de tostões de pré, os novos soldados contratados passaram a ganhar centenas de euros. O aumento da despesa só pode ter sido brutal. Para além disso, os profissionais passaram a ter direito a regalias que nem por sonho eram dadas à tropa macaca do contingente geral. Um profissional pode demitir-se se não gostar do sítio onde está; um incorporado, não. Onde antigamente estava gente obrigada, agora tem de haver gente "aliciada". A carreira das armas, ainda que por um prazo máximo de oito anos, tem de ser minimamente apelativa (até para gente que não arranje mais nada para fazer), e isso custa dinheiro.

De que o país precisa de Forças Armadas, só duvidam aquelas pessoas a quem a natureza muniu de uma inteligência própria de um organismo unicelular (uma boa parte da nossa população) e aqueles radicalecos de esquerda para quem qualquer coisa que se assemelhe a instituição ou ostente ligações à ideia de Nação deve ser exterminada em nome da Revolução Universal (ou lá o que eles chamam à barafunda política de que tanto gostam). Os outros, os que ainda entendem que a soberania não se joga apenas na contabilidade mas também na capacidade de pregar um bom estalo a algum rufião que nos entre em casa (independentemente de quanto devemos ao banco), esses, sabem que só países de comédia é que se limitam a ter apenas guardas costeiras ou polícias de fronteira. Até a neutralíssima Suíça tem consciência de que o seu direito de dizer "cagamo-nos nos outros" tem de ser garantido por uma boa estrutura de defesa.

Portanto, e a menos que esta gente por cá perca definitivamente a cabeça, a tropa é para manter e, até, melhorar. A nossa Zona Económica Exclusiva, por exemplo, voltou a aumentar e é preciso assegurar o seu patrulhamento. Se isso deve ser feito com submarinos ou navios-patrulha, já é uma questão técnica que me escapa (a mim e a quase toda a gente); se o modelo de helicóptero A é melhor do que o B, aí então, a minha ignorância ainda é maior. Sei é que continuará a haver gente a naufragar e a precisar de que os "inúteis" dos militares a vão lá salvar; sei é que continuará a haver tráfico de droga e de gente que é preciso travar; sei é que quando nós não ocupamos o sofá todo, alguém se tenta lá sentar também...

Ora, para umas Forças Armadas modernas é preciso ter muito dinheiro: cada vez mais é a tecnologia que manda e essa não é de borla. A acrescentar a isso, muito do nosso equipamento ainda é antiquado e precisa efetivamente de ser substituído. A História ensinou-nos (aos que têm capacidade de aprender) que sempre que Portugal não cuidou bem do seu exército, pagou caro por isso. Ao mesmo tempo, sempre que o país necessitou de sacudir a canalha que cá entrasse, nunca pode fazê-lo exclusivamente com recurso a soldados pagos: o Povo teve sempre de participar.

Outra coisa que também se pode aprender é que quanto mais profissionalizadas forem umas Forças Armadas, mais forte é o seu corporativismo e, consequentemente, o perigo para a Democracia. A Defesa Nacional deve ser uma obrigação de toda a população e não apenas um emprego das 9 às 5 (os oficiais, cá, até têm o desprendimento de apenas se fardarem dentro do quartel).

A verdade é que, sendo as exigências do oficialato incompatíveis com o espírito miliciano, há que poupar nas despesas de pessoal no que diz respeito à soldadesca. Uma coisa são as unidades de escol, que exigem um treino rigoroso e permanente, outra coisa são todos os outros corpos, mais ou menos operacionais e onde se poderia poupar rios de dinheiro com o retorno do Serviço Militar Obrigatório. E este nem teria de ser geral (já não o era, no seu ocaso) mas apenas limitado aos números estritamente necessários para assegurar o bom funcionamento dos regimentos. E, inclusivamente, poderia, até, ser usado como uma espécie de "castigo" para quem se portasse mal, fosse na escola, fosse em sociedade.

Por exemplo: um calão ia para a universidade pública e, uma vez lá, chumbava ano após ano - era logo apanhado pelo SMO; um tipinho andava para aí sem fazer nada e a rejeitar ofertas de trabalho... - SMO com ele; pessoal do rendimento mínimo garantido - SMO garantido; rapazinhos com hiperatividade no que toca a brigas - acalmavam no SMO; malta apanhada a fumar ganzas - iam curtir para o SMO; ases do volante - iam abrandar no SMO. E por aí adiante. Como se vê, o SMO nem precisava de por as suas mãos na generalidade da tugalhada - bastavam os casos a necessitar de correção de comportamento. POupava-se dinheiro e ainda se conseguiam corrigir algumas alminhas.

Volta SMO, que estás perdoado!

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